De Los Angeles a São Francisco

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Esta semana estive a organizar uma viagem através da Follow Me ( http://follow-me.com.pt), a minha consultora de viagens, um percurso para duas pessoas pela Pacific Coast Highway, que vai de Los Angeles  a São Francisco e que é considerada uma das estradas mais bonitas do mundo.

Fi-la há uns anos e agora a programá-la para estes clientes, deram me uma saudades brutais dessa viagem. É um percurso lindo e que acaba em São Francisco, uma das minhas cidades favoritas nos Estados Unidos. A voltar sem dúvida.

Aqui vai a reportagem que escrevi na altura para o suplemento Fugas, do jornal Público.

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De Los Angeles a São Francisco à beira do Pacifico

Setecentos quilómetros por aquela que é considerada uma das estradas mais bonitas do mundo, a Pacific Coast Highway. Desde a “cidade dos anjos” até à cidade dos “hippies”, ao longo da Califórnia sempre com o oceano ao alcance do olhar. Uma marginal a perder de vista, povoada de surfistas, esquilos, vacas e leões marinheiros, com as ondas a rebentar ao fundo e as gaivotas a sobrevoar o mar.

Na Cidade dos Anjos

Não há melhor maneira de começar a viagem pela Pacific Coast Highway (PCH) do que sentado num restaurante à beira-mar, lá para os lados de Malibu, em Los Angeles, a comer “chips and shrimps” – camarões panados com batatas fritas –, enquanto se avistam golfinhos a mergulhar ao longe. Ao sol, a lambuzar os dedos, a ouvir as gaivotas e a digerir a mítica “cidade dos anjos”, o ponto de partida para a aventura.

Não faz sentido fazer a PCH sem viver Los Angeles, como não faz sentido percorrê-la se ao fim não nos deixarmos perder por São Francisco. Deixar para trás as modelos, os surfistas e os actores e mergulhar no mundo “hippie”, “gay”  e “beat”.

Para começar, Los Angeles está longe de ser uma cidade, mas sim uma cidade com várias cidades, com vários mundos, com várias modas, estilos e comunidades. Uma Beverly Hills de avenidas com mais de 45 quilómetros, ladeadas por gigantescas palmeiras e sumptuosas moradias. Com uma mítica Rodeo Drive, uma das ruas mais snobs do mundo, pejada de lojas caríssimas e turistas de máquina fotográfica em punho. Uma Hollywood desprovida do “glamour” de outros tempos, actual chamariz de japoneses de câmara ao pescoço, traficantes e prostitutas, num Passeio da Fama com muitas estrelas mas com pouco brilho. Uma Baixa que mais parece uma pequena cópia de Manhantan e uma Santa Mónica imortalizada na série Marés Vivas. Uma “passarelle” à beira-mar pejada de corpos esbeltos, homens musculados, loiras de patins em linha, amantes do jogging e aficionados do surf. Já em Malibu esquece-se o barulho da cidade ao fundo e fica o som das ondas, os golfinhos, as falésias e… as “chips and shrimps”. Para lambuzar os dedos e sentir o sabor a mar antes de pôr as mãos ao volante por uma estrada que parece entrar pelo Pacifico dentro e trazer-nos ao de cima no paraíso.

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Entre Los Angeles e o Big Sur

“Por aqui vive-se com calma”, diz Lauren Barrigan, sentada na varanda de sua casa, em Carpinteria Beach, enquanto prepara uns Gins Tónicos. Com as montanhas de Santa Ynez ao fundo e quilómetros e quilómetros de areal deserto pela frente, este foi o recanto escolhido para “vir de tempos a tempos descansar de tudo.” Como companhia, só as gaivotas que vão aterrando na varanda do apartamento, construído literalmente sobre a praia, em cima de estacas, longe dos olhares incómodos de comissões ambientalistas. “Por aqui ninguém diz nada, podemos construir as casas na areia que não há problema, podemos destruir as dunas, arrasar com o areal, não podemos é fumar, isso é que não, isso é que é um ultraje”, comenta com ironia, no meio de algumas baforadas.

A escassas dezenas de quilómetros de Los Angeles, Carpinteria Beach é daqueles sítios onde apetece descansar, mesmo que não se esteja cansado. Em que apetece meditar, folhear um livro, beberricar um Gin Tónico com calma a olhar para o mar, dar uns mergulhos nas ondas e passear, sem pressas, entre as gaivotas e os limos, por quilómetros e quilómetros sem fim. Até Santa Bárbara, cidade de mar, tipicamente mediterrânica, com um traço mourisco e um sabor de férias. Muitas palmeiras, muitas construções em barro, muitos surfistas, lojas “hippie-chic” e restaurantes étnicos. E praia, sempre a praia ao fundo, afinal estou na Califórnia, na própria da terra dos Beach Boys, que nunca fizeram surf mas puseram meio mundo a trautear as suas músicas em cima de pranchas.

Faço-me ao caminho, a estrada vai serpenteando entre uma vereda verdejante e um oceano azul-turquesa, recortado por bananeiras, coqueiros e rochas. Vou parando pelas praias, cruzo-me com esquilos irrequietos, grandes leões-marinhos e vacas malhadas. Pode parecer até que estou nos Açores, mas entre curva e contra curva dou por mim no Big Sur, a maior costa selvagem do estado da Califórnia. 160 quilómetros de montanhas, penhascos e enseadas a que o escritor Robert Louis Stevenson chamou “ o maior encontro entre a terra e o mar do mundo.” Pode ser exagero, pode ser fantasia, mas lá que parece, parece.

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Do Big Sur a São Francisco

Depois das montanhas daquele que foi apelidado pelos colonos espanhóis como o “Grande País do Sul”, a Pacific Coast Highway desemboca na capital colonial espanhola da Califórnia, Monterey. Uma cidade tipicamente piscatória, com uma grande marina repleta de veleiros e pontões pejados de restaurantes. Por debaixo das estacas mergulhadas no mar, vêem-se dezenas de focas a brincar, cheira a camarão e amêijoas e a cada esquina esbarro com bancas de madeira onde se vendem pequenos copos de plástico com cocktails de marisco e saladas de frutos do mar. A especialidade por estas bandas é, no entanto, o Clams Chowder, um grande pão sem miolo, onde é servida uma fumegante sopa de amêijoas. Depois é só desembolsar vinte e cinco dólares e rumar a mar alto para “ver um dos mais bonitos espectáculos do mundo”. Pelo menos é o que diz Tony Hopper, dono de um dos muitos baleeiros que zarpam diariamente dos pontões de Monterey, carregados de turistas sequiosos de ver as baleias que cruzam os mares da Califórnia. “Enormes, fantásticas, cada vez em menor número confesso, mas ainda um espectáculo muito bonito”, afiança este homem do mar. “O espectáculo mais bonito do mundo? É capaz de não ser, mas tenho direito a dizê-lo,  pouco mais vi do que isto, o meu pai era pescador, o meu avô também, a minha vida sempre foi por aqui, no mar, dantes pescava-se baleias, agora ganhamos dinheiro a mostrá-las vivas, é a ironia da vida”, conta, com um encolher de ombros. “Não quer vir? Vai para São Francisco? Então não deixe de passar por Capitola, ao pé da Santa Cruz, tem as melhores ondas do planeta”, aconselha, despedindo-se com um sorriso largo.

Sigo a sugestão e desço Monterey rumo a um dos paraísos do surf da Califórnia, uma pequena vila à beira-mar onde chego ao pôr-do-sol. Um recanto de descontracção pintalgado de palmeiras, pequenas casinhas de madeira pintadas às cores, surf shops, restaurantes tailandeses, italianos e mexicanos debruçados sobre o Pacifico. Mesmo aos últimos raios de sol são dezenas e dezenas os surfistas que resistem no mar indiferentes às águas gélidas. Há quem tenha idade para fazer frente a tudo, há quem vá buscar ao espírito a energia de outros tempos. “O que é preciso é manter a paixão acesa”, explica Joe Barlin, cinquentão, barriga proeminente, cabelo ralo, “long board” debaixo do braço. “Para se continuar a fazer surf a única receita é não parar nunca, caso contrário enferruja-se e já não se consegue voltar”, revela. Aponta para o mar, prateado, com ondas desenhadas a pincel e responde-me numa pergunta: “Acha que a idade pesa quando vemos um mar destes pela frente? A única coisa que mudou é que na juventude fumava sempre um charrito antes de entrar dentro de água e agora limito-me a entrar”, remata, antes de se fazer ao mar, iluminado pelos últimos raios de sol.

Despeço-me de Joe, despeço-me de Capitola e aproveito a última noite para jantar em Santa Cruz, outro dos paraísos do surf mundialmente conhecidos. Como à noite não se conseguem ver as ondas e os surfistas perdem-se pela rua principal de uma cidade virada de frente para a praia, fico por aqui até amanhã, afinal quero comprovar se a fama tem alguma realidade ou nem por isso.

De Santa Cruz a São Francisco

 

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Pronto estou convencida, os Beach Boys podem ter sido engolidos pelo tempo, pelas ondas, por aquilo que tenha sido, mas a verdade é que o espírito do surf continua em grande por estes lados. Ondas enormes, perfeitas, a perder de vista, centenas de surfistas, de todas as idades e feitios. Uma cultura de mar, de boa disposição, de “não te rales que eu também não, deita os problemas para trás das costas e faz-te ao mar pois ele leva as coisas más e traz-te as boas”, como explica Leonard Bradlaw, 43 anos, surfista há mais de três décadas. Atravessa-se à frente do meu carro rumo ao mar, descalço, fato térmico, prancha debaixo do braço. Por aqui ninguém respeita as passadeiras, os carros ou o quer que seja, aqui só se respeita o surf, o mar, as ondas. Leonard vive durante a semana em São Francisco e ao Sábado e Domingo em Santa Cruz. Faça chuva ou faça sol passa quase todo o dia dentro de água, dantes era com os amigos, agora já é com estes, com os seus filhos e com os filhos dos outros. “É um amor que foi passando no sangue de geração, em geração, costumo dizer que somos uma família de pés molhados, todos fazemos surf menos a minha mulher que fica a ver-nos do alto da falésia.”

Quando dou por mim também lá estou eu ao lado da mulher do Leonard, mais dezenas de surfistas que se vestem e despem no meio da rua, mais pessoas a fazer jogging, a passear os cães, a comer cachorros quentes, a tirar fotografias aos leões-marinhos que se refugiam lá em baixo nas rochas. Deito um último olhar ao mar e arranco com o carro pelo último troço da PCH, rumo a São Francisco. O Pacifico fica lá para trás, mas pela frente descubro aquela que é capaz de ser a cidade mais latina dos Estados Unidos. Apesar da população ser basicamente americana, apesar da distância entre a costa Oeste e Portugal ser abissal aqui reconheço-me, aqui sinto o pulsar de uma cidade verdadeira, descomprimida, sem conceitos nem preconceitos. Por aqui janta-se tarde, enchem-se as ruas pela noite fora, dão-se abraços em público, bebem-se cervejas pela garrafa em plena avenida. Até há um bairro exclusivamente gay, o Castro, polvilhado de bandeirinhas multicolores e repleto de esplanadas cheias e restaurantes originais. Até há um bairro exclusivamente “hippie”, Haight Ahsbury, com uma esquina onde nasceu este movimento e com um espírito que mantém até hoje a corrente bem desperta.

Em São Francisco sente-se acima de tudo que há vida pelas ruas que sobem e descem vertiginosamente até ao mar. Colinas sem fim, por onde se encavalitam as casas de madeira tipicamente vitorianas, com vista para os eléctricos abertos que vão subindo a custo, carregados de pessoas que se cumprimentam quando os carros se cruzam.

São Francisco não é mais uma cidade americana, mas sim a Califórnia em cidade. No fundo, são os Estados Unidos em férias à beira-mar.

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