Route 66: e a estrada continua… até Los Angeles

Route 66 (o fim da viagem)

Um amanhecer no Grand Canyon, uma noite em Las Vegas, um nascer do sol no deserto do Death Valley e o fim da “Main Street of America” já em Los Angeles à beira do Pacifico. A Route 66 termina por aqui mas a estrada continua sempre em frente.

8º Dia Pelo Arizona até ao Grand Canyon

Chego à conclusão que os Estados Unidos fazem bem à pele. Mais ou menos como um “lifting”, uma boa noite de sono, muita água, cremes caríssimos e uma alimentação saudável. Porquê? Porque ainda não houve nenhum sítio onde chegasse e pedisse uma cerveja que não fosse obrigada a mostrar o passaporte como prova de que tenho mais de 21 anos. Eu que já vou com passo de corrida a caminho dos trinta sou a cada esquina confundida com uma adolescente imberbe. Nem sequer acreditam que já deixei os bancos de escola há alguns anitos. “A sério que já não está a estudar?” perguntam-me com os olhos muito abertos no café do Jack Rabbitt Trading Post, em Joseph City, lá para terras do Arizona. As perguntas seguem-se em catadupa, vários locais vão-se juntando à minha volta curiosos por saber mais de uma terra tão distante que nem sabem onde fica ao certo. “Vem de Portugal? Que giro, então vem de muito longe não vem?”, pergunta-me Jessie Wilmer, acrescentando logo de seguida: “Isso fica lá para o Sul não é verdade?”. “Sim, sim, fica lá para o Sul mas para o Sul da Europa”, respondo. A assistência faz um “Uau!” colectivo – está visto que por aqui não passam muitos viajantes – e as perguntas sucedem-se. Já deixei de ser portuguesa, afinal sou simplesmente europeia, tratam-me como se pertencesse não a um país, mas uma grande comunidade, fico convencida que na América profunda a União Europeia é um verdadeiro sucesso.

Pelo meio de umas canecas de água suja a que aqui chamam de café, vou respondendo à vez a perguntas tão bizarras como, “Como é que se vive na Europa?”, “Faz muito calor na Europa?”, ou  “Há algum sitio giro para ver na Europa?”. Tento explicar que a Europa não é um país mas sim um continente, grande, diversificado e com várias culturas próprias e especificas. Não surte efeito, acabo por me despedir quando oiço alguém a explicar, com ares de professor, que “lá na Europa a maioria das pessoas fala brasileiro.”

Arranco com o carro rumo a Flagstaff, uma cidade construída no sopé das montanhas de São Francisco, a cerca de 80 quilómetros do Grand Canyon. Ao longo do caminho a paisagem vai mudando radicalmente, do deserto e das planícies a perder de vista, passo para montanhas, pinheiros, casas de telhados reclinados para a neve escorregar. Quando chego a Flagstaff já estou completamente convencida que cheguei aos Alpes suíços. Os chalés de madeira, os abetos à beira da estrada, um friozinho cortante, lojas de equipamento de desportos de Inverno. Flagstaff mais parece uma estância de ski do que uma cidade do Estado (que se julga quente) do Arizona. Afinal, as montanhas fazem destas coisas e realmente a neve é muita durante os Invernos desta zona.

Já ao anoitecer perco-me pelas ruas cheias de gente jovem e animada, o ambiente é descontraído, os bares sucedem-se a cada esquina, em tons quentes e acolhedores. Não consigo perceber porquê, mas esta é uma cidade com ar de férias, talvez porque seja o refúgio de muitos cowboys reformados, amantes das caminhadas e do montanhismo, ou simplesmente por ser ponto de passagem obrigatório dos viajantes a caminho do Grand Canyon. E é para lá que eu também vou mal a noite cai. Uma estrada imensa recortada pela sombra dos pinheiros, dezenas de quilómetros pelo escuro da noite até uma cancela que me barra o caminho com o aviso que é proibido passar daquele ponto. Mas então afinal onde é que está o Grand Canyon, interrogo-me. Sem resposta, entre o sonolento e o muito enregelado, reclino o banco do carro e fico por aqui até à manhã seguinte.

9º Dia – Do Grand Canyon a Las Vegas

Acordo aos primeiros raios de sol e mal olho pela janela do carro deparo-me com o espectáculo colossal do grande desfiladeiro considerado uma maiores maravilhas do mundo. Afinal sempre esteve ali a escassos metros de mim. Se não fosse a bendita placa a alertar-me para não seguir em frente talvez eu tivesse conhecido o Grand Canyon literalmente mais a fundo, mas basta-me assim. Lindo, gigantesco, indescritível.

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Com cores entre o sonho e a realidade, dos rosas aos vermelhos, com o lamacento rio Colorado lá bem ao fundo num precipício sem fim. Os turistas são mais que muitos, há excursões de mula, de helicóptero, avioneta e autocarro. Mas também se pode encontrar silêncio à beira de um penhasco e ficar assim, sozinho a contemplar. Sem pressa, que por aqui o tempo anda mais devagar.

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A manhã já vai no fim quando me consigo arrancar do grandioso desfiladeiro e fazer-me novamente à estrada, rumo ao Estado do Nevada, onde Las Vegas surge como uma bomba de cor e de luz no meio do deserto. Chego por volta das oito da noite e sem aviso deixo a estrada escura e mergulho num mar de néons, hotéis gigantescos, um trânsito infernal. A surpresa ultrapassa em muito tudo aquilo que se possa esperar.

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Milhões de pessoas enchem a rua principal, The Strip, no meio de uma réplica da Torre Eiffel,  de outra do Arco do Triunfo, de uma cidade do Aladino, de uma Estátua da Liberdade e de um Empire State Building a recriar Nova Iorque. A cada esquina salta a surpresa ao caminho. De um lado um gigantesco leão a abrir as portas do hotel da MGM, de outro lado um hotel em pirâmide com uma esfinge à escala da milenar que está lá pelo Egipto. Pelo meio ainda há um gigantesco lago onde dezenas de repuxos com cem metros de altura dançam ao som de Frank Sinatra ou do Titanic de Céline Dion. Sigo pelo Las Vegas Boulevard fora, inebriada pelo barulho alucinante das milhares de “slot machines”, enquanto centenas de limousines cruzam o trânsito, indiferentes às velhas porto-riquenhas que distribuem anúncios a bordéis, às noivas de véu a arrastar que atravessam as passadeiras de braço dado com marinheiros, às prostitutas de pernas longas e pastilha na boca que mandam piropos aos homens que passam.

“Mas afinal quem vem para Las Vegas?”, pergunto a um casal de texanos, convidados de um dos muitos casamentos que se realizam diariamente por aqui. “Vem quem não tem dinheiro para vir, a maioria é de classe baixa, mesmo muito baixa. Depois há também aqueles que vêm de avião, têm uma limousine à espera, chegam ao hotel, ficam a noite inteira a jogar em salas privativas, vão dormir, acordam, jogam, jogam, jogam, apanham um avião e voltam à sua vida”, explicam em segundos. “Para lá desses dois tipos de pessoas que vêem para aqui, há os como nós que vêm por causa dos casamentos”, rematam.

E os matrimónios são sem dúvida uma das grandes indústrias da cidade. Entre cetins e coroas de flores, há capelas e “packs” para todos os gostos. Por aqui privilegia-se o imediatismo, basta o BI, um teste de sangue e 500 euros e qualquer um se pode casar no próprio dia em que chega. Com padre a abençoar, dois flutes de champanhe, marcha nupcial, 24 fotografias e alguns minutos de filme. Com convidados ou sem eles, com vestidos de noiva e fatos de aluguer, a qualquer hora do dia ou da noite. Os casais que tenham mesmo muita pressa podem mesmo jurar amor eterno sem sair do carro. Não se tenha dúvidas, tudo é possível na cidade da ilusão.

 10º Dia- De Las Vegas a Los Angeles

Cheguei ao último dia, não à última milha, mas acordo com uma sensação estranha de fim de festa. Parto de Las Vegas ainda antes do nascer do sol, pelo deserto de Mojave fora rumo ao Death Valley, com saudades de tudo o que ainda não esqueci: os campos de milho do Illinois, as pradarias do Texas, os olhos tristes dos índios de Navajo, os sonhos dos hispânicos do New México, as cores do Painted Desert, a imensidão do Grand Canyon, a alucinação de Las Vegas. Quando dou por mim estou tão perdida no meio das minhas memórias, como no meio do deserto.

Longínquo, profundo, arrebatador. Dunas a perder de vista, montanhas sem fim, cactos gigantescos. Metade do tamanho de Portugal coberto de rocha e areia, por onde se escondem coiotes e cascavéis, lagartos “chuckwallas” e ratos-cangurus. E um nascer do sol onde o mundo parece nascer também. Mesmo a meio de uma imensidão de espaço, no ponto mais baixo dos Estados Unidos, onde as águas cheias de sal, baptizaram o local de Badwater.

A estrada vai serpenteando por entre a terra, o calor abafa, durante os meses de Verão este é o local com a temperatura mais alta do planeta, um sítio tão inóspito quanto belo. Já a meio da manhã passo pelo único oásis que existe no meio deste deserto, Furnace Creek. Alguns restaurantes, bungalows, um mini-mercado, um hotel dos anos 20 e o campo de golfe mais baixo do planeta. Cruzo-me com motards alemães em digressão pelo mundo, com reformados do Alasca em viagem de turismo, com um parzinho romântico de gays irlandeses. No meio de tantos estilos e origens,  Howard Stampton, empregado de mesa local, ainda fica pasmo quando me ouve dizer que sou portuguesa. “De onde?”, pergunta sem crer. “De Portugal? Há 25 anos que trabalho aqui e nunca vi um único português por estes lados”, afirma pasmado. “Route 66? Livra, deve ser uma viagem fantástica, mas desde Portugal até aqui??”, exclama abanando a cabeça. “Sabe, chegou ao único sítio do mundo onde a temperatura do solo é tão elevada que é possível fritar um ovo no chão”, afirma em jeito de despedida. “Quando voltar já pode dizer isto lá por Portugal.”

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Enquanto volto e não volto, arranco até ao fim do deserto, as horas passam e Los Angeles é a meta. Já junto ao mar, depois de uma confusão de intermináveis auto-estradas que cruzam toda a cidade até Santa Mónica. A “Mother Road” termina precisamente onde o Pacifico começa, num pontão imortalizado pela série Marés Vivas, no meio de meninas de patins em linha, homens musculados a fazer jogging e centenas de gaivotas.

A Route 66 termina por aqui mas a estrada segue sempre em frente.

 

 

 

Onde ficar

No Grand Canyon existem duas opções, ou entrar durante a noite e dormir no carro (como grande parte dos visitantes), ou entrar durante o dia, pagar 20 euros de acesso e ficar hospedado no Maswik Lodge ou no Phantom Ranch por cerca de 120 euros por noite o quarto duplo.

Em Las Vegas, a opção varia conforme se for dia de semana ou fim de semana. Se no primeiro caso se consegue encontrar quartos duplos em bons hóteis por cerca de 120 euros por noite, ao final de semana os preços sobem assustadoramente para quatro vezes mais. Um quarto de motel de beira de estrada, sem ar condicionado, pode chegar aos 190 euros. O melhor é mesmo reservar com antecedência e informar-se das promoções que existem durante todo o ano.

Quanto ao Death Valley prepare-se para uma diária nunca inferior aos 250 euros por quarto duplo.

 

Onde comer

No Grand Canyon a única opção são os buffets disponiveis nos hoteis da vila. Já em Las Vegas, não faltam opções, desde buffets a 9 euros, a pizzas e a hamburgueres, passando por restaurantes japoneses, italianos, franceses, tudo a um preço médio de 15 euros por pessoa. Já no Death Valley , os únicos restaurantes que existem são no rancho de Furnace Creek, com vista para as montanhas, costeletas, bifes e pastas, a um preço médio de 40 euros cada.

 

 

 

 

 

13 comentários

  1. Boa tarde Catarina,

    Antes de mais felicito-a pelo blog fantástico. Espero que assim continue, com muitas viagens e muitas receitas partilhadas.

    Escrevo-lhe pois em Maio irei fazer o percurso de Chicago a LA, esperando que a maioria do tempo seja pela Route 66, exactamente pelos motivos que descreve aqui, paisagens duras e intensas de uma américa mais profunda e rural. Mal posso esperar!
    O que mais quero conhecer é Chicago, as aldeias e vilas da Route, o Grand Canyon e claro: LA.
    No entanto, gostaria de colocar aqui Vegas, embora essa não me interesse tanto.

    Será que vale a pena o desvio? ou deva aproveitar mais um dia em Los Angeles? Irei viajar 15 dias!

    Muito obrigada!

    • Olá Joana desejo lhe desde já uma óptima viagem. Eu adorei, foi sem dúvida uma das grandes viagens da minha vida. Eu não gostei de Las Vegas, mas aconselho a que se vá lá pelo menos um dia ou dois pois é um sítio único no mundo. Não há igual. E como naõ aconselho nada a que se vá lá de propósito, já que está mesmo ali ao ldo, porque não? Chegue à noite e vai ficar estupefacta com o banho de luz no meio do deserto.
      Bjs, Catarina

      • Olá Catarina! 🙂 Muito obrigada pela sua resposta… realmente estaremos mesmo muito perto de Las Vegas e talvez compense ‘o saltinho’, só uma noite para ver como é!

        Ume vez mais obrigada e beijinhos

  2. Olá Catarina,

    Para podermos fazer a route 66 é necessário termos carta internacional de condução?

    Obrigada,
    Marlene

      • Olá Catarina,

        Tinha enviado um e-mail à ACP e responderam agora a informar que é necessário adquirir uma licença internacional, que tem um custo de 30€.
        Não sei o que fazer…

        • Olá Marlene já estive várias vezes nos EUA e várias vezes aluguei carro, a últimas das vezes fez em Dezembro um ano e nunca foi necessário. Aconselho que se informe junto de um rent-a-car ou mesmo da embaixada dos EUA.

  3. Olá,
    Gostaria de saber os cuidados a ter nesta viagem.

    Quero faze-la em setembro, mas gostaria saber mais…

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