Viagens de uma vida…. Route 66

Acho que a primeira vez que ouvi falar na mítica Route 66, a estrada que atravessa os Estados Unidos, ainda andava no liceu, teria aí uns 15 anos. Na altura houve uns amigos mais velhos que foram fazer essa viagem durante umas férias e voltaram com tantas histórias e tantas fotos maravilhosas que prometi a mesma que um dia também eu iria fazer a travessia americana. E assim foi, tinha eu 26 anos e um monte de sonhos e expectativas.

Foram 15 dias memoráveis de Chicago a Los Angeles, atravessando vários estados, vários fusos horários, percorrendo o interior profundo de uma nação ao volante de um Chevrolet Cavalier dourado.

O relato da aventura foi saindo ao longo das semanas no Fugas. Aqui fica ele como recordação de uma viagem imperdível.

“Route 66: 3600 quilómetros pelo o Oeste até ao sonho americano”

Quatorze dias vividos à milha, numa viagem costa a costa, entre Chicago e Los Angeles. Percorrendo uma estrada escondida pelos mapas, por entre desertos, planícies e montanhas. Oito Estados, três fusos horários, temperaturas entre os 4 e os 30º graus. Índios de chapéu à cowboy, cowboys a conduzir debulhadoras, empregadas de mesa que sonham chegar a Hollywood e hispânicos que já se esqueceram de sonhar. Tudo com muitos néons, “blues”, hambúrgueres e panquecas.

A Route 66 poderia hoje em dia não passar de uma velha estrada americana mas a história fez nascer o mito, a tradição manteve-o e a força de alguns faz com que a magia permaneça. Inaugurada em 1926 do século passado, a lendária “Mother Road” veio ligar os dois lados do continente, desenvolver o interior dos Estados Unidos e encaminhar milhares de pessoas para o sonho californiano durante a Grande Depressão da década de 30. Encerrada nos anos 70, aquando a construção de uma auto-estrada paralela, aquela que foi considerada por muitos como a principal estrada dos Estados Unidos ainda hoje mantém bem viva a memória dos tempos.

Cenário de “westerns” e séries de televisão, fonte de inspiração para o romance “Vinhas da Ira” de Steinbeck, imortalizada na voz quente de Nat King Cole, pela Route 66 passaram escritores, músicos, índios, presidentes, “gangsters” e aventureiros, entre milhões de figuras sem rosto. De Abraham Lincoln a Al Capone, de Bonnie and Clyde a Mark Twain, de Jack Kerouac a mim própria. Dez dias pelo Oeste americano até ao Pacifico, ao volante de um Chevrolet Cavalier de cor indistinta. As histórias são as que se seguem.

1º Dia. Chicago

Mas será que os norte – americanos andam sempre a cair no meio do chão com ataques cardíacos? Esta é a primeira impressão que tenho ao pisar solo americano, após nove horas de viagem. Pelas paredes do aeroporto internacional de Chicago, no Estado de Illinois, vêem-se dezenas de desfibrilhadores – aparelhos utilizados no socorro de paragens cardíacas pregados nas paredes. Explicam-me que aqui é normal acontecerem alguns “acidentezitos”, afinal “a alimentação moderna não faz muito bem” e o “fast-food” espreita em cada esquina. E a verdade é que na cidade de Chicago, quase todas as ruas cheiram a cachorros quentes. Desde a zona mais residencial junto a Lincoln Park até bem ao centro do Loop, na baixa da cidade, passando pelo grande passeio junto às margens do lago Michigan.

Logo à saída do aeroporto alugo o carro que me irá acompanhar durante toda a viagem. Calha-me um Chevrolet, entre o castanho e o dourado, grande e mole como a maioria dos carros americanos. Anda pouco e gasta muito, mas os limites de velocidade são rígidos e o litro de gasolina ronda os 30 cêntimos.

Perco-me no emaranhado das ruas de Chicago, num trânsito imenso, rumo ao Loop. Até lá sucedem-se as casas de dois andares, estilo vitoriano, janelas amplas, as cortinas por cá estão fora de moda, as casas abrem-se a quem passa na rua. Vêem-se salas, sofás, televisores, lareiras, episódios da vida real. Quase todas as casas têm uma grande bandeira nacional pregada na porta, o país está em guerra e o patriotismo sente-se a cada passo.

2º Dia. Chicago

São 20 horas de uma sexta-feira e na cidade de Al Capone, os bares já estão cheios, os mais baratos pela Lincoln Avenue atraem estudantes com “pints” de cerveja barata. Bob e Joanny, 23 anos, são ambos locais. Ao contrário da maioria dos americanos, escolheram tirar um curso superior na universidade do sítio onde sempre viveram. Uma opção que tomaram por causa da vela, confessam. A viverem à beira do imenso lago Michigan onde as marinas se sucedem, Bob e Joanny desde cedo que se lançaram à água. “Ainda por cima estamos na cidade do vento, não arranjávamos melhor sítio para velejar”, comenta Bob. Joanny concorda e aproveita para discorrer um bocadinho sobre a sua cidade. “É capaz de ser a metrópole mais americana que existe na América”, afirma, “Nova Iorque é muito internacional, Los Angeles muito artificial e Boston muito elitista, aqui somos tal como somos, somos mais puros.”

E tal como uma boa cidade americana, Chicago tem também um pouco de tudo: um centro com grandes arranha – céus espelhados, onde se destaca a Sears Tower -o prédio mais alto do mundo – uma Chinatown algo decrépita, uma Litlle Italy e uma Greektown repleta de restaurantes e uma forte comunidade gay na área de Lakeview, zona de bares ecléticos, lojas originais e restaurantes étnicos.

Para que não falte mesmo nada, na zona Sul do Loop vêem-se porto-riquenhos a lavar carros no meio das ruas, enquanto jovens suburbanas deambulam de mini-saia e meias de rede, cruzando-se com executivos de fatos de bom corte. As limusinas circulam às dezenas e quem não é grande e obeso é excepção. Estou na América, na verdadeira América. Amanhã logo de manhã rumo à estrada, por hoje fico por aqui.

Catarina Serra Lopes

Como ir

A Tap e a Continental fazem voos para Chicago via Nova Iorque.

Para fazer a Route 66 pode-se alugar um carro logo numa das agências do aeroporto de Chicago ou mesmo ainda em Portugal, pelo telefone ou pela internet. Os preços variam entre os setecentos e os dois mil euros conforme a agência e o tipo de carro pretendido. Não esquecer de perguntar o custo da taxa adicional pelo facto de se deixar o carro na outra costa, o que é à volta de uns 300 euros.

Onde ficar

Em Chicago as ofertas são múltiplas e variadas, tudo depende de quanto é que se está disposto a gastar. Desde pousadas da juventude a 50 euros o quarto duplo, como a Arlington House, até ao Hilton à beira do lago Michigan – quarto duplo a 180 euros- a escolha é muita.

Onde comer

Na cidade dos “hot-dogs” por excelência, arrisque-se e coma um. No meio da rua, com muita cebola frita, pickles, mayonaise, ketchup e mostarda. Mesmo à americana, com tudo aquilo a que tem direito.

Para um jantar requintado, vá até à zona do Loop e perca a cabeça e a carteira num dos muitos restaurantes de topo que se encontram por aqui. Para um ambiente mais informal, experimente os variadíssimos restaurantes étnicos na zona de Lakeview, de indianos a russos, passando por japoneses a italianos, o cardápio é do mais variado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

$Route 66: 3600 quilómetros pelo o Oeste até ao sonho americano

 

Quatorze dias vividos à milha, numa viagem costa a costa, entre Chicago e Los Angeles. Percorrendo uma estrada escondida pelos mapas, por entre desertos, planícies e montanhas. Oito Estados, três fusos horários, temperaturas entre os 4 e os 30º graus. Índios de chapéu à cowboy, cowboys a conduzir debulhadoras, empregadas de mesa que sonham chegar a Hollywood e hispânicos que já se esqueceram de sonhar. Tudo com muitos néons, “blues”, hambúrgueres e panquecas.

 

A Route 66 poderia hoje em dia não passar de uma velha estrada americana mas a história fez nascer o mito, a tradição manteve-o e a força de alguns faz com que a magia permaneça. Inaugurada em 1926 do século passado, a lendária “Mother Road” veio ligar os dois lados do continente, desenvolver o interior dos Estados Unidos e encaminhar milhares de pessoas para o sonho californiano durante a Grande Depressão da década de 30. Encerrada nos anos 70, aquando a construção de uma auto-estrada paralela, aquela que foi considerada por muitos como a principal estrada dos Estados Unidos ainda hoje mantém bem viva a memória dos tempos.

Cenário de “westerns” e séries de televisão, fonte de inspiração para o romance “Vinhas da Ira” de Steinbeck, imortalizada na voz quente de Nat King Cole, pela Route 66 passaram escritores, músicos, índios, presidentes, “gangsters” e aventureiros, entre milhões de figuras sem rosto. De Abraham Lincoln a Al Capone, de Bonnie and Clyde a Mark Twain, de Jack Kerouac a mim própria. Dez dias pelo Oeste americano até ao Pacifico, ao volante de um Chevrolet Cavalier de cor indistinta. As histórias são as que se seguem.

 

1º Dia. Chicago.

Mas será que os norte – americanos andam sempre a cair no meio do chão com ataques cardíacos? Esta é a primeira impressão que tenho ao pisar solo americano, após nove horas de viagem. Pelas paredes do aeroporto internacional de Chicago, no Estado de Illinois, vêem-se dezenas de desfibrilhadores – aparelhos utilizados no socorro de paragens cardíacas pregados nas paredes. Explicam-me que aqui é normal acontecerem alguns “acidentezitos”, afinal “a alimentação moderna não faz muito bem” e o “fast-food” espreita em cada esquina. E a verdade é que na cidade de Chicago, quase todas as ruas cheiram a cachorros quentes. Desde a zona mais residencial junto a Lincoln Park até bem ao centro do Loop, na baixa da cidade, passando pelo grande passeio junto às margens do lago Michigan.

Logo à saída do aeroporto alugo o carro que me irá acompanhar durante toda a viagem. Calha-me um Chevrolet, entre o castanho e o dourado, grande e mole como a maioria dos carros americanos. Anda pouco e gasta muito, mas os limites de velocidade são rígidos e o litro de gasolina ronda os 30 cêntimos.

Perco-me no emaranhado das ruas de Chicago, num trânsito imenso, rumo ao Loop. Até lá sucedem-se as casas de dois andares, estilo vitoriano, janelas amplas, as cortinas por cá estão fora de moda, as casas abrem-se a quem passa na rua. Vêem-se salas, sofás, televisores, lareiras, episódios da vida real. Quase todas as casas têm uma grande bandeira nacional pregada na porta, o país está em guerra e o patriotismo sente-se a cada passo.

 

2º Dia. Chicago II

São 20 horas de uma sexta-feira e na cidade de Al Capone, os bares já estão cheios, os mais baratos pela Lincoln Avenue atraem estudantes com “pints” de cerveja barata. Bob e Joanny, 23 anos, são ambos locais. Ao contrário da maioria dos americanos, escolheram tirar um curso superior na universidade do sítio onde sempre viveram. Uma opção que tomaram por causa da vela, confessam. A viverem à beira do imenso lago Michigan onde as marinas se sucedem, Bob e Joanny desde cedo que se lançaram à água. “Ainda por cima estamos na cidade do vento, não arranjávamos melhor sítio para velejar”, comenta Bob. Joanny concorda e aproveita para discorrer um bocadinho sobre a sua cidade. “É capaz de ser a metrópole mais americana que existe na América”, afirma, “Nova Iorque é muito internacional, Los Angeles muito artificial e Boston muito elitista, aqui somos tal como somos, somos mais puros.”

E tal como uma boa cidade americana, Chicago tem também um pouco de tudo: um centro com grandes arranha – céus espelhados, onde se destaca a Sears Tower -o prédio mais alto do mundo – uma Chinatown algo decrépita, uma Litlle Italy e uma Greektown repleta de restaurantes e uma forte comunidade gay na área de Lakeview, zona de bares ecléticos, lojas originais e restaurantes étnicos.

Para que não falte mesmo nada, na zona Sul do Loop vêem-se porto-riquenhos a lavar carros no meio das ruas, enquanto jovens suburbanas deambulam de mini-saia e meias de rede, cruzando-se com executivos de fatos de bom corte. As limusinas circulam às dezenas e quem não é grande e obeso é excepção. Estou na América, na verdadeira América. Amanhã logo de manhã rumo à estrada, por hoje fico por aqui.

 

Catarina Serra Lopes

 

Como ir

A Tap e a Continental fazem voos para Chicago via Nova Iorque.

Para fazer a Route 66 pode-se alugar um carro logo numa das agências do aeroporto de Chicago ou mesmo ainda em Portugal, pelo telefone ou pela internet. Os preços variam entre os setecentos e os dois mil euros conforme a agência e o tipo de carro pretendido. Não esquecer de perguntar o custo da taxa adicional pelo facto de se deixar o carro na outra costa, o que é à volta de uns 300 euros.

 

Onde ficar

Em Chicago as ofertas são múltiplas e variadas, tudo depende de quanto é que se está disposto a gastar. Desde pousadas da juventude a 50 euros o quarto duplo, como a Arlington House, até ao Hilton à beira do lago Michigan – quarto duplo a 180 euros- a escolha é muita.

 

Onde comer

Na cidade dos “hot-dogs” por excelência, arrisque-se e coma um. No meio da rua, com muita cebola frita, pickles, mayonaise, ketchup e mostarda. Mesmo à americana, com tudo aquilo a que tem direito.

Para um jantar requintado, vá até à zona do Loop e perca a cabeça e a carteira num dos muitos restaurantes de topo que se encontram por aqui. Para um ambiente mais informal, experimente os variadíssimos restaurantes étnicos na zona de Lakeview, de indianos a russos, passando por japoneses a italianos, o cardápio é do mais variado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4 comentários

  1. É uma das viagens que quero fazer mas o post está me a aparecer mal…e só até ao 2º dia em repetido

  2. Boa noite 🙂

    Parabéns pelo post antes de mais!

    Queria saber como organizou a viagem? É algo que quero fazer há algum tempo, mas tenho imensa dificuldade em perceber os recursos necessários (investimento, o que é preciso fazer, preparar,….) Poderia dar uma ajudadinha?

    Muito obrigado.
    E mais uma vez parabéns.

Deixar uma resposta

Campos obrigatórios têm *.


Preencha o CAPTCHA *